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O vazio e o olhar: sobre a dúvida de existir

Atualizado: 5 de mai. de 2025

Que o ser humano dependa, para sua constituição, do olhar do outro, é algo que não se pode considerar mero detalhe do desenvolvimento. Desde os primeiros tempos da infância, o sujeito se oferece à mirada parental com um apelo mudo, à espera de uma inscrição que lhe garanta um lugar no campo do desejo. Não é apenas amor o que busca: é ser. E é esta demanda originária que, não encontrando resposta suficiente, inscreve uma falta que jamais será preenchida.


As marcas deixadas por esse primeiro laço não se apagam no curso da vida. Ao contrário, reencontram-se disfarçadas nas mais diversas formações do inconsciente: nos sintomas que repetem, nas angústias que persistem, nos atos que rompem o fio da razão. A dúvida sobre a própria existência fora do campo do olhar do outro, que emerge aqui e ali nas associações, não é sinal de patologia circunstancial: é o eco tardio da fundação mesma do sujeito na falta.


O olhar dos pais — ora ausente, ora excessivo, ora errático — não cria o vazio; apenas lhe confere contornos. O vazio é anterior. Sua gênese é estrutural, ligada à entrada do ser na ordem da linguagem, que o separa para sempre de qualquer unidade plena consigo mesmo. Mas é no entrelaçamento com o desejo parental que esse vazio ganha corpo, adquire peso, converte-se em angústia que não cessa. É este vazio, articulado à busca incessante pelo olhar do outro, que atravessa a história do sujeito como uma ferida aberta. O vazio e o olhar do outro, entrelaçados desde os primórdios, sustentam a dúvida que retorna sob múltiplas formas: existo fora da visão do Outro?



"Composição abstrata representando o vazio eterno e angustiante no sujeito diante do olhar do outro"


A clínica ensina que o sujeito, diante da falha do olhar esperado, oscila entre duas estratégias: ou procura sem fim reconstituir o olhar perdido em novas figuras, multiplicando relações de demanda e expectativa, ou precipita-se em atos que visam, pela violência do gesto, arrancar do Outro um sinal de reconhecimento. Em ambos os casos, o que se busca não é o objeto perdido, mas a prova de que a própria existência tem um valor que transcende o vazio inicial.


Não cabe ao analista prometer o que o Outro não pôde oferecer. Tampouco cabe ao trabalho analítico suprir a falta que funda o sujeito. O que se opera na análise, quando ela se orienta pela estrutura, é a passagem da busca cega à elaboração da falta, permitindo que o sujeito reconheça nela não apenas a causa de sua dor, mas também a condição de possibilidade de seu desejo.


Pois é precisamente porque o Outro é falho que o sujeito pode desejar. E é porque o vazio não se apaga que algo, no falar, no construir e no criar, insiste em querer existir.

 
 
 

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